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quinta-feira, 17 de abril de 2008

Entre farpas e afagos


O site Digestivo Cultural publica o especial Blogueiros e Jornalistas. Vejamos, então, alguns pontos de vista sobre o tema.

Jornalistossaurus x Monkey Bloggers


Por Diogo Salles

Imagine, você, aquele almoço de domingo em que absolutamente toda a família está reunida. Pais cachaceiros, mães tiranas, filhos pentelhos, primos folgados, tios tarados, tias palpiteiras, cunhados cafajestes, sogras megeras, noras invejosas, avós ranzinzas... Tem lugar até para o cachorro mijão e o papagaio boca-suja. Misturando tudo isso no mesmo liqüidificador, óbvio que ninguém sairá ileso. E os sintomas dessa epopéia serão os mais diversos. De um lado as crianças correm, gritam, quebram, choram, brigam, fazem guerra de almofada e quase sempre acabam se machucando com as "brincadeiras de mão". Do outro lado, lá onde só fica "gente grande", os adultos se exaltam em verborragias idílicas, empanzinados em seus próprios vícios e embebidos em barris de cachaça. Após a comilança desenfreada, os bacuris seguem em seu pesadelo anárquico. Para os adultos, um breve sal de frutas e a busca pelo sofá mais próximo, onde roncarão como rinocerontes. Ao final do dia, a gurizada já não encontrará mais nada para destruir. Hora de acordar o papai, que, combalido pela ressaca que se avizinha, vai precisar de uma forcinha para chegar até o carro. Tchau. Domingo que vem tem mais.

Vejam como um simples almoço de família na modorra dominical serve como a metáfora perfeita para ilustrar este triste espetáculo. Bem-vindos à "guerra" de blogueiros contra jornalistas. E vice-versa ― como diriam os filósofos do clichê futebolístico. A polêmica até seria interessante, se ficasse na brincadeira. Mas é tola, exatamente porque se pretende séria. Embora este novo clássico da estupidez humana não seja tão vil quanto o da política (PT x PSDB ― ou Lula x FHC, como queiram), não deixa de expor o nosso maniqueísmo em sua face mais personalista e egocêntrica. Jornalistas e blogueiros que me desculpem pela acidez do título e pela ilustração, mas não fui eu quem inventou tais indumentárias e nem proclamou a "guerra".

A verdade é que essas não são apenas brincadeiras com um fundo de verdade. São carapuças que não poderiam ter servido melhor em seus respectivos. Vivo dizendo que nessa batalha falta bom senso. Tanto jornalistas quanto blogueiros sofrem de uma enfermidade bastante brasileira dos dias atuais: a falta de senso de humor e, principalmente, de autocrítica. Essa aversão do brasileiro à crítica já foi abordada pelo Julio aqui e o Polzonoff foi ainda mais longe: "Escrevi um livro totalmente inspirado pela minha tendência à auto-chibata. Parti do pressuposto errado de que as pessoas que escrevem são capazes disso também. Quando, na verdade, a regra é a auto-congratulação e auto-condescendência".

E assim o brasileiro segue, sempre levando-se demasiado a sério, engessado pelos mandamentos da cartilha politicamente correta. Quem não se lembra do piquete de orangotangos formado por causa daquela campanha publicitária do Estadão? Mais surpreendente foi a adesão de bons blogueiros à barricada. Gente que estava a léguas de distância do macaco Bruno preferiu se juntar a ele. A campanha nada mais era do que uma ironia. Um pouco exagerada, talvez, mas era uma boa oportunidade para os blogueiros fazerem uma auto-avaliação, repercutindo o assunto na blogosfera e, de quebra, devolver a ironia ao jornalismo paleozóico. Mas era esperar demais dos simianos. Ficaram tão ofendidos que foi necessária uma retratação do Estadão e um debate para colocar panos quentes no "mal-entendido". Nem tudo, no entanto, está perdido. Parece que o senso de humor foi resgatado e, na Campus Party deste ano, jornalistas e blogueiros aprenderam a aceitar suas diferenças e seus infames apelidos. Ainda que com um sorriso amarelo, mas aceitaram. Só ficou faltando a autocrítica.

E já que nunca houve um voluntário para fazê-la, ofereço aqui os meus humildes serviços. Afinal de contas, sou blogueiro e trabalho em jornal, portanto, também faço parte da "guerra". E, como estou nessa "guerra" a contragosto, sinto-me no direito de destroçá-la. Só não vale vestir a carapuça de novo, combinado? Não quero que ninguém perca aquele senso de humor conquistado a duras penas. Enquanto ambas as partes se autoproclamam como a salvação da lavoura, berrando as mesmas bravatas, trocando farpas e acusações, o leitor assiste impávido a este espetáculo dantesco onde só há perdedores.

Mas, enquanto a "guerra" acontece, será que os jornalistas se desviam das pautas mais interessantes ou deixam de apurar devidamente suas matérias? Será que, pela "guerra", os blogueiros rejeitam uma leitura ou pesquisa mais aprofundada para redigir um post de maneira minimamente decente? É possível. É provável. Saindo do pantanoso terreno dos achismos, vamos aos fatos. O jornalismo ainda não compreendeu o fenômeno da internet. É estranho que uma boa parcela de jornalistas ainda continue ignorando todo o potencial da web, acreditando que todas as respostas podem ser lidas somente no papel. Mas, se o jornalismo não precisa mesmo superar o período paleozóico, por que esses mesmos pterossauros, antes de alçar vôo, sempre dão uma passadinha lá no Google e nos portais?

Apesar de tudo, alguns medalhões continuam olhando a internet com certa desconfiança e desdém. Enxergam-na apenas como mais uma ferramenta. Ou, em casos mais extremos, como uma empregada a seu serviço. A internet pode ser (e é) muito mais do que isso. Falta enxergar as inúmeras possibilidades que ela oferece. De volta ao planeta dos macacos, certos blogueiros também não sabem (e não querem) ficar no seu galho. Nem bem chegaram ao mundo e já partiram para o confronto, querendo tomá-lo de assalto. Decretam, aos berros, o "fim do papel", a "democratização da informação" e outras pérolas do populismo on-line. Esquecem que, para tanto, precisam deixar de molhar as calças.

E alguns homo sapiens da net não usam fralda com flocgel ultra-absorvente, logo, não há como limpar a sujeira que fazem. Mas estranho mesmo é tentar explicar por quê muito do que se vê nos blogs são reproduções ou opiniões sobre o que se acabou de ler na grande mídia. Cômico e trágico. Um criticando o outro, mas, ao mesmo tempo, um usando o outro no trabalho diário. A metáfora inicial serviu apenas para mostrar que, embora "crianças" e "adultos" usem linguagens diferentes para se expressar e que, na maioria das vezes, não conseguem se entender, são "parentes" e precisam estar lado a lado. Esta é uma equação de difícil resolução e será muito difícil achar um consenso, mas dizem que sempre encontramos na simplicidade as respostas mais complexas.

De todas as questões levantadas até agora, só duas delas me parecem já respondidas de forma bem clara. A primeira é que um jovem escriba deve se iniciar na internet, ponto final. Através dos blogs, sites especializados etc., ele poderá experimentar seu texto e evoluir. Mais importante, terá a recepção quase que imediata dos leitores, o que poderá levá-lo a novos caminhos e descobertas. E tudo "di grátis". Se a empreitada der certo, é hora de arriscar algo mais ambicioso. Se não der, ninguém foi à falência e ninguém saiu ferido (a não ser as tradicionais viúvas e primas donas infiltradas na net). A outra é que a internet deixou de ser uma ferramenta há um bom tempo para se tornar uma realidade, queiram ou não. Com seus pouco mais de 10 anos, ainda incipiente, mas uma realidade. O que falta ainda (e vai levar alguns anos para isso) é adquirir a mesma relevância e credibilidade dos jornais. E esse período de maturação pode ser mais curto do que acreditam os céticos. Ou mais longo, caso os blogueiros insistam em sua cruzada apocalíptica.

Isso posto, a conclusão ― ridiculamente óbvia, mas, ainda assim, ignorada ― é que existe conteúdo de qualidade tanto na web quanto no papel. Claro que existe muito lixo nos dois também, mas de nada adiantará cada um varrer o seu para debaixo do tapete e atacar o outro lado. É preciso separar a matéria-prima e o material reciclável daquilo que é lixo não-reciclável. Espero que os jornalistas não fiquem chateados comigo. Afinal, sou apenas mais um filhote de dinossauro que acabou de sair da casca do ovo e está querendo avançar na pré-história. Gostaria também que os blogueiros, meus irmãos símios, perdoassem minha sinceridade, mas para arrotarmos caviar, precisamos comê-lo antes. Ah, não nos esqueçamos da fralda com flocgel!

Nota do Autor
O conteúdo desta coluna e sua data de publicação podem ter sido mera coincidência ou fruto de uma teoria conspiratória.

Jovens blogueiros, envelheçam

Por Rafael Rodrigues

A blogosfera brasileira é, abrindo poucas exceções, irrelevante. Não adianta espernear, tentar argumentar. Esta é a realidade: a grande maioria dos blogs brasileiros não tem importância nenhuma. São bobos, cheios de conteúdo descartável e, o que é pior, muito mal escritos. Basta ver a lista dos 100 melhores blogs do Brasil, segundo o Technorati. Há, sim, endereços com bom conteúdo. Mas o que vemos entre os 20 primeiros colocados são blogs de humor e de cultura pop ou trash, todos descartáveis. Dentro das exceções, de conteúdo relevante, estão alguns blogs sobre informática e tecnologia, e um coletivo.

Se continuarmos a observar a lista, veremos blogs de jornalistas (Ricardo Noblat, Reinaldo Azevedo e outros) que, na minha opinião, são os espaços que realmente valem ser visitados. Além de informar, eles apuram as notícias que divulgam, têm fontes. Ou seja: fazem jornalismo. Nada contra os blogueiros que escrevem diários, de forma alguma. Diversos amigos meus têm blogs, os visito com alguma regularidade (mesmo que pouca) e gosto de lê-los. Minha crítica é dirigida àqueles blogs com uma série de posts vazios, que não provocam nenhum tipo de reflexão. Você lê, tem alguns acessos de riso, lembra de alguns fatos da sua infância e só. Sem contar o fato de alguns deles serem tremendamente mal escritos.

Os jornalistas, tanto faz se em jornais, revistas ou blogs, ao menos escrevem bem. É certo que alguns deles escrevem pior que blogueiros, mas não se trata da maioria, e sim de uma minoria. Não vale aqui dizer que "blog é entretenimento" e "jornalismo é informação". Afinal, uma das razões deste Especial é refletir sobre o fato de a blogosfera brasileira estar incomodada com o descaso que a imprensa tradicional faz (?) dela. Mas como não "ignorar" os blogs brasileiros, se a maioria deles é mal escrita, vazia de conteúdo e descartável? Blogueiros brasileiros não fazem notícia, não apuram dados. Os que fazem isso são poucos. E, no meio desses poucos, estão muitos jornalistas com anos e anos de estrada.

Trocando em miúdos: o que há de conteúdo relevante nos blogs brasileiros é produzido, em grande parte, por jornalistas. É bom deixar claro que eu tenho um blog. E admito que não há nada de muito relevante nele, nem nenhuma novidade. No mais das vezes, escrevo sobre livros ou sobre o meu dia-a-dia, que nada tem de interessante. Mas não tenho nenhuma pretensão com ele, ao menos por enquanto. Então, não vejo mal nenhum em reconhecer que o meu blog é só mais um entre milhares de outros por aí. É por isso que não consigo entender toda essa birra, essa briga boba entre blogueiros e jornalistas.

Aliás, acho que entendo. A audiência na rede tem aumentado, e muito. Até alguns anos atrás os blogs eram dominados por jovens que escreviam seus diários virtuais ou por profissionais especializados. Havia concorrência, competição, entre os próprios blogueiros, mas nada semelhante ao que vemos agora, com os jornalistas. Parece que, depois que a grande imprensa acordou e viu na internet uma oportunidade de atrair leitores para os veículos impressos, a competição se tornou uma questão de orgulho, de honra, de respeito. Mas, seja sincero comigo, por favor. Como respeitar um blog que, entre os 10 últimos posts, 08 são vídeos engraçadinhos encontrados no YouTube? Ou um outro que faz propaganda de sites pornográficos?

Não dá pra respeitar. Isso não significa, de maneira alguma, que a blogosfera brasileira inteira não mereça respeito. Os blogs são de extrema importância, hoje. Não só aqui no Brasil, mas em qualquer país do mundo. Há algumas décadas os intelectuais brasileiros criavam suplementos literários ou revistas irreverentes para expressar suas opiniões e fazer oposição aos governos vigentes. Isso exigia uma boa quantia de dinheiro, e quase todas essas manifestações intelectuais foram ceifadas pela falta dele. Além de esses veículos ficarem restritos a geralmente apenas uma cidade.

Hoje um coletivo de blogs desempenha o mesmo papel que essas iniciativas do passado, com muito menos gastos e com um alcance bem maior. Sem a mesma contundência, é verdade, mas ainda assim com sua devida importância. Também não podemos dizer que os jornalistas, todos eles, são corretos, íntegros e responsáveis. Basta ver a quantidade de matérias parciais e pessoais publicadas todos os dias, todas as semanas. Muito do que falta à maioria dos blogueiros, falta também a um considerável número de jornalistas: critério, honestidade e bom senso, para ser bastante breve e superficial. E maturidade, é claro, para aceitar as críticas e aprender com elas.

Seria injusto terminar este texto sem citar o principal personagem desta "briga": nós, leitores. Afinal, somos nós que compramos os jornais e revistas, e acessamos os blogs. Nós é que decidimos quem são os "melhores". Precisamos ter também um pouco mais de maturidade, critério e bom senso, separar o que é importante do que não é, saber a diferença entre um comentário mais longo e uma matéria bem feita, distinguir um blog de um site de entretenimento em formato de blog. A única certeza que temos é que a blogosfera brasileira ainda tem muito para aprender e crescer. É bem provável que daqui a alguns anos os blogs realmente assumam o papel ― sem trocadilho ― dos veículos de imprensa tradicionais. Mas, daqui até lá, os blogueiros têm muito que aprender com o jornalistas. E, em menor escala, vice-versa.

Jornalismo em tempos instáveis

Por Luiz Rebinski Junior

Uma das coisas mais cansativas no debate acerca do papel da internet como meio de comunicação de massa, é a forma maniqueísta com que o assunto é discutido, tanto por parte dos detratores, quanto pelos entusiastas das chamadas "novas mídias". De um lado os novos agentes da informação, que há tempos decretaram a falência dos jornais e o fim do jornalismo tal como se conhece desde sempre. Na outra ponta estão aqueles que ainda acreditam que a chamada mídia impressa detém o monopólio da credibilidade e, portanto, não precisa se render aos novos tempos. Em geral o que se vê são discussões apaixonadas sobre o tema, mas pouco realistas. Mas existem exceções. Em um artigo intitulado "Cyberutopias e jornalismo", publicado recentemente no jornal O Estado de São Paulo, Eugênio Bucci, jornalista e ex-presidente da Radiobrás, escreve de forma bastante esclarecedora sobre a possível morte dos jornais e o domínio da internet no campo da informação em um futuro próximo.
Comentando o relatório The State of the News Media 2008, que mapeia o estado atual da imprensa nos Estados Unidos, o jornalista traça um bom panorama sobre a influência da internet na comunicação norte-americana. Entre as informações mais interessantes do relatório comentado por Bucci, uma em especial chama a atenção: a de que a internet nos EUA tem sido uma importante alternativa para quem quer ir além daquilo que os diários noticiam, mas que, diferentemente do que se pensava sobre o caráter democrático e expansivo da web na veiculação de notícias, a concentração de audiência de sites noticiosos é maior do que a verificada na mídia tradicional. "Os dez sites noticiosos de maior audiência, em sua maioria extensões de marcas já consagradas na televisão ou na chamada 'impressa escrita' ― como CNN, com 29,1 milhões de visitantes únicos por mês em 2007, ou The New York Times, com 14,7 milhões ―, exercem praticamente uma 'oligarquia', nos termos do relatório, dentro da rede. No jornalismo on-line, a concentração de audiência é ainda maior do que a verificada na mídia convencional. Os dez maiores sites correspondem por 29% do total, enquanto os dez maiores jornais impressos representam apenas 19% do mercado. Essa concentração segue em crescimento, contrariando as previsões de que o aumento do número de portais, blogs e sites estilhaçaria o domínio de marcas tradicionais", escreve Bucci.
Isso não representa somente a garantia do monopólio das grandes redes de comunicação, que apenas transferiram seu domínio para o espaço virtual. Quer dizer mais. Confiabilidade e credibilidade talvez sejam fatores que ainda façam a diferença quando se fale em comunicação de massa. Ainda são elementos imprescindíveis que, em grande parte pelo pouco tempo de existência, a maioria dos blogs e sites independentes ainda não tem ― e confiança do leitor não se conquista a toque de caixa, é um processo longo e árduo. Ainda que o relatório comentado por Bucci se refira exclusivamente à imprensa norte-americana, no Brasil a situação não é muito diferente. Pelo menos quando se fala de sites sobre política ou economia. Quais são os sites confiáveis hoje para se informar sobre os bastidores de Brasília ou as últimas decisões do Banco Central referentes à taxa de juros? Por aqui, a grande maioria dos blogs noticiosos relevantes e que tem alguma audiência expressiva é assinada por jornalistas figurões que foram ou ainda são ligados às grandes redes de comunicação, tal como jornais e televisões.
E isso acontece pelo simples fato de que não existem blogueiros independentes dispostos a sujar os sapatos, como um Gay Talese da web, indo para a rua apurar fatos e tirar dos lugares menos prováveis as informações mais relevantes, como fazem os bons repórteres. E por que razão os nossos blogueiros não tiram a mão do mouse? Simples. Porque ninguém os paga para fazê-lo. É óbvio que há textos interessantíssimos em muitos blogs da internet brasileira. Mas a impressão que se tem é que a maioria dos blogueiros está sempre muito apressada quando posta um texto em sua página, pouco se importando em fazer uma pesquisa mais minuciosa sobre o que escreve ou uma revisão caprichada, detalhes bastante caros ao bom jornalismo, seja ele noticioso ou de opinião, pouco importa. Os poucos que encaram o trabalho duro são justamente aqueles que recebem para publicar em papel e (também) manter atualizado um blog, que não raramente é alimentado com o mesmo material da versão impressa.
Tome-se como exemplo as versões on-line dos grandes jornais brasileiros. Praticamente quase tudo que está disponível on-line foi pensado para servir à versão impressa ― e aqui a falácia da tal "linguagem" da internet, que seria caracterizada por textos mais curtos e concisos, cai por terra. E isso se deve a um detalhe bastante simples, mas vital: a internet brasileira (leia-se sites noticiosos) ainda não consegue sustentar redações, pagar salários a jornalistas (ou não-jornalistas) e manter um bom quadro de colaboradores fixos. Fato que remete de imediato à questão da credibilidade. Anunciantes ainda preferem ver suas marcas estampadas em papel, ainda que os jornais, como é de conhecimento geral, tenham perdido muitos leitores nos últimos anos.
Mas mesmo a crise dos jornais, argumento tão utilizado pelos entusiastas da web para sacramentar a morte dos impressos, não se deve exclusivamente à internet. A tal crise envolve muitos outros aspectos, como estagnação econômica, que naturalmente afugenta anunciantes, e tem origem muito antes da popularização da internet ― que também pode ser vista com cautela, já que no Brasil ainda um número muito pequeno de pessoas tem acesso ilimitado à rede. Então é no mínimo duvidoso apostar que a mídia impressa vai morrer. Não vai. Assim como o livro não morreu e não vai morrer nunca, mesmo que continue saindo das gráficas com tiragens irrisórias (principalmente quando se trata de literatura). O que parece não ter ficado claro para muitos, é que o momento não é de total ruptura.
O que está acontecendo é a transição de um modelo de jornalismo que não funciona mais como funcionava antes, mas que ainda guarda características que dificilmente vão deixar de ser relevantes no mundo da comunicação. A internet abriu importante espaço para que as pessoas possam se manifestar de forma livre e democrática, com iniciativas interessantes que não deixam o leitor refém dos grandes veículos de comunicação. Além disso, a chegada da web forçou mudanças nos meios tradicionais de informação que há tempos se avizinhavam e que estão melhorando o jornalismo tradicional. E este parece ser o grande legado da internet, pelo menos por enquanto.