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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Ao deus-dará


Funcionários tiram página da Tribuna da Imprensa do ar

Do Comunique-se

Com seis meses de atraso de salários, sem repasse à Receita Federal do imposto de renda recolhido e sem ter em suas carteiras de trabalho a baixa registrada para pelo menos darem entrada no seguro-desemprego, os funcionários da Tribuna da Imprensa decidiram cruzar totalmente os braços, principalmente aqueles que ainda atualizavam o site, que está fora do ar desde 01/04. O webmaster, que também deixou de trabalhar, é quem hospeda a página do jornal.

Eles divulgaram também um manifesto, intitulado “Documento-Denúncia”, relatando os problemas pelos quais estão passando.

Jornalistas com os quais o Comunique-se conversou contaram também que o trabalho realizado para fazer edições especiais foi pago parcialmente, já que a direção da Tribuna alega que, por duas vezes, foi assaltada. “Da primeira vez, um funcionário teria ido ao banco para receber [jornalistas têm recebido em dinheiro] e foi assaltado. Outra vez informaram-nos que dois homens em uma moto entraram no prédio e levaram o dinheiro que teríamos para receber. O que mais nos causa estranheza é que da primeira vez notamos uma resistência para a Tribuna registrar o Boletim de Ocorrência”, contou uma fonte.

No documento, a comissão de funcionários da Tribuna pede um posicionamento da Associação Brasileira de Imprensa, da qual Hélio Fernandes, proprietário do jornal, é conselheiro. “Nós, jornalistas, entendemos que à ABI caberia se manifestar em favor destes trabalhadores, já que é um órgão criado por jornalistas em defesa dos jornalistas, mas que nunca deixou de se engajar nas grandes lutas deste País em defesa da sociedade. Entretanto, meses se passaram e nenhuma manifestação de repúdio a esta situação vivida pelos funcionários da Tribuna da Imprensa, tampouco qualquer denúncia contra o Sr. Hélio Fernandes, um de seus conselheiros”, escreveram.

“A ABI não é um órgão sindical. Quem tem que se posicionar é o sindicato do Rio e a Federação Nacional dos Jornalistas. Não só se manifestar mas também agir junto aos poderes constituídos no sentido que a Tribuna seja indenizada pelos anos que sofreu durante a ditadura militar”, disse o presidente da ABI, Maurício Azêdo.

No final de fevereiro, o ministro Celso de Mello rejeitou recurso movido pela União para o não pagamento de indenização à Tribuna da Imprensa por censura, perseguições e prejuízos morais e materiais sofridos entre 1969 e 1979, durante a ditadura militar. O proprietário da Tribuna, Hélio Fernandes, informou na época que assim que receber a indenização pagará todas as dívidas contraídas pelo jornal ao longo de todos esses anos, a começar pelos salários atrasados dos funcionários.

Fernandes ainda não se manifestou sobre o manifesto, tampouco sobre a página da Tribuna estar fora do ar.

Leia o manifesto na íntegra:

"DOCUMENTO-DENÚNCIA

Os funcionários do jornal Tribuna da Imprensa e seus familiares, indignados com a situação de penúria a que foram relegados pelo Sr. Helio Fernandes, proprietário do citado jornal, resolvem denunciar à população e autoridades públicas, depois de promessas e acordos firmados com o Sindicato dos Jornalistas que não foram cumpridas:

Seis meses de salários atrasados.

Não há depósito de Fundo de Garantia nem recolhimento de INSS desde 1995 (crime).

Não recebemos 13° salários de 2007/2008 e falta pagar 50% do 2003.

Não há repasse à Receita Federal do imposto de renda recolhido dos empregados, impedindo assim o recebimento da restituição (crime sonegação).

Não há vale-transporte, vale-refeição e plano de saúde.

Condições de trabalho insalubres.

Durante o ano de 2008, não recebemos sequer 1 mês o salário integral, sempre entre 25% e 50%.

Os pagamentos, quando feitos, eram em espécie, na própria empresa, expondo os empregados a uma série de riscos (não há conta-salário).

Os empregados demitidos ou que pediram demissão não receberam o mês trabalhado e em atraso.

E, como se não bastasse tudo isso, o Sr. Helio Fernandes, no mês de dezembro último, comunicou que estava encerrando “momentaneamente” as atividades da empresa, sem prazo de volta, segundo ele pode ser 1 mês, 1 ano, 5 anos..., deixando os funcionários, num período de festividades, com dois meses de salários atrasados (completou 6 meses este mês). Não teve ao menos a preocupação social de dar baixa nas carteiras dos funcionários para recebimento do seguro-desemprego e aqueles mais antigos, anteriores a 1995, retirarem o pouco de Fundo de Garantia que ainda têm.

Pretendemos com este documento mostrar verdadeira face do jornalista Helio Fernandes e sua “preocupação social”, tantas vezes preconizada em seus artigos, com críticas a empresários, políticos e membros do Judiciário, mas que esqueceu de pôr em prática na sua empresa.

Na verdade, a tão criticada, por ele, reforma trabalhista, que suprime direitos conquistados com suor e muita luta pelos trabalhadores, já foi implantada em sua empresa.

Quanto à alegação de que se encontra em insolvência, pelo fato de o Supremo Tribunal Federal não resolver a sua demanda judicial, que pede indenização por perseguições ocorridas durante a ditadura militar, é de se estranhar que só 23 anos depois do término deste período negro e próximo de uma solução o jornalista Helio Fernandes resolva fechar sua empresa. Nós, funcionários da Tribuna da Imprensa, temos o sentimento de estarmos sendo usados como massa de manobra para que Sr. Helio Fernandes possa obter êxito em seu processo contra a União. É justa a sua demanda e injusta e cruel a forma como estamos sendo tratados.

O sentimento de impunidade fica cada vez mais forte entre os empregados da Tribuna da Imprensa, tendo em vista que no mês de janeiro deste ano uma comissão de funcionários procurou o Ministério Público do Trabalho e relatou todas estas irregularidades, ficando a promessa por parte deste órgão de serem tomadas, urgentemente, todas as providências necessárias para uma solução às denúncias feitas. Estamos no mês de abril e nada resolvido, sequer multa para os infratores.

Quanto à Receita Federal, não vimos também nenhuma ação concreta, por conta dos descontos do imposto retido na fonte feitos nos contracheques dos funcionários, mas não repassados a este órgão. Muitos estão na malha fina em razão deste crime praticado pela empresa do Sr. Helio Fernandes (não há lei que puna esta prática com cadeia?). Não bastasse isso, o Comprovante de Rendimentos Pagos e de Retenção de Imposto de Renda na Fonte fornecido pela empresa declara salários, abonos e 13° que não foram pagos. O que mais é permitido ao Sr. Helio Fernandes fazer?

Nós, jornalistas, entendemos que à ABI caberia se manifestar em favor destes trabalhadores, já que é um órgão criado por jornalistas em defesa dos jornalistas, mas que nunca deixou de se engajar nas grandes lutas deste País em defesa da sociedade. Entretanto, meses se passaram e nenhuma manifestação de repúdio a esta situação vivida pelos funcionários da Tribuna da Imprensa, tampouco qualquer denúncia contra o Sr. Helio Fernandes, um de seus conselheiros.

Atenciosamente,

Comissão dos Funcionários da Tribuna da Imprensa"

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Circo da Notícia


"ESQUEMA DANTAS"

É Natal! Queremos a lista de presente

Por Carlos Brickmann em 23/12/2008


A Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas, atirou na mosca: nada é mais importante para nossa categoria profissional, neste momento, do que saber quem são os jornalistas que, conforme palavras do delegado Protógenes Queiroz, da Polícia Federal, "abastecem Daniel Dantas ou faziam manifestação de mídia a favor dele". A denúncia, da maneira como foi formulada na entrevista do delegado, coloca todos sob suspeita – amigos de Dantas, inimigos de Dantas, jornalistas que jamais lidaram com esse tema. A Fenaj pediu esclarecimentos à Polícia Federal e ao ministro a que a PF está subordinada, Tarso Genro, da Justiça.

O repórter Daniel Roncaglia, do Consultor Jurídico, procurou o delegado Protógenes Queiroz, que comandou a Operação Satiagraha e considera Daniel Dantas um bandido. Queiroz se recusou a falar; de acordo com o ConJur, disse que o repórter que o procurou "é um idiota" e bateu o telefone.

Resta, portanto, o caminho procurado pela Fenaj para saber quais são os acusados (e ouvir sua defesa). Dizem os ofícios da Fenaj:

"(...) a não divulgação dos nomes de eventuais culpados, se existirem de fato, coloca sob suspeição toda a categoria (...). Esta federação tem o dever de se opor a qualquer tentativa, por mais dissimulada que seja, de enlamear a imagem dos jornalistas brasileiros, fazendo supor que todos fossem corrompíveis, razão porque vem a V. Excia. pleitear a divulgação urgente da referida lista de nomes, se existir, com as devidas provas do suposto envolvimento, sob pena de todos pagarem por alguns".

A lista de jornalistas que o delegado considera envolvidos no "esquema Dantas" seria o melhor presente de Natal para a profissão. Primeiro, por tirar as acusações do lamacento terreno da fofoca e do diz-que-diz-que e levá-las à luz do Sol, onde o mau procedimento profissional pode ser julgado pelos colegas jornalistas e pela Justiça; segundo, por expor os acusadores à defesa de quem foi acusado. É fácil dizer que há muita gente ligada ao crime – fácil e óbvio. Difícil é dizer quem são e provar seu envolvimento. Os jornalistas podem contribuir para esclarecer essa história – e melhor o farão se puderem trabalhar livres de suspeitas e de suspeitos.



A saúde do governador

O colunista Cláudio Humberto informou, em seu blog, que o governador paulista José Serra se submeteu a um cateterismo no Hospital Sírio-Libanês, no dia 13/12. Foi, segundo Cláudio Humberto, um procedimento rápido: Serra passou por lá de madrugada e saiu logo depois do cateterismo.

Mas cadê o resto da imprensa, que não foi atrás da informação, para confirmá-la ou desmenti-la? A assessoria de imprensa de Serra deu um meio-desmentido: disse ao próprio Cláudio Humberto que desconhecia o fato. Mas não disse que o fato não ocorreu. E o estado de saúde do governador José Serra é hoje de interesse nacional: como possível candidato à Presidência da República, o público tem o direito de conhecer seus eventuais problemas médicos.



Blindagem vermelha

O ditador de Cuba, Raúl Castro, não deu entrevistas durante o tempo em que esteve no Brasil. Quando um jornalista ousou perguntar-lhe sobre os dissidentes fuzilados em Cuba, explodiu, disse ao jornalista o que é que deveria perguntar-lhe e não respondeu. E este colunista, certamente por falha na pesquisa, não se recorda de ter visto nenhum protesto contra a falta de entrevistas.



Acusação sem defesa

O Ministério Público Estadual acusa a empresa Home Care Medical, envolvida no caso da Máfia dos Parasitas, de contribuir com 3,5 milhões de reais para 26 candidatos a prefeito, em três estados. O problema é que, na reportagem sobre o assunto, sai a lista dos que teriam recebido a doação, mas ninguém foi procurado para apresentar sua versão. Já haveria informações disponíveis de que essa empresa estaria sendo investigada por atividades ilegais? Se não houvesse informações, como os candidatos saberiam que não deveriam aceitar seus recursos? De acordo com a matéria, as doações eram ilegais. Que explicação oferecem os beneficiários para ter recebido doações ilegais?

A síndrome da matéria pronta, recebida quentinha e com muitas informações, embora parciais, continua prejudicando a reportagem. No caso, um pouco mais de trabalho poderia até complicar a vida dos acusados. Se não tivessem boas explicações para receber doações ilegais, que manobra teriam feito para aceitá-las?



Os 40 anos

O episódio do drible que a equipe do Jornal da Tarde deu na Polícia Federal, que queria apreender o jornal no dia do Ato Institucional nº 5, desdobra-se em muitas histórias. Mário Marinho, ótimo repórter, lembra a distribuição de mão em mão, enquanto a Polícia Federal tentava apreender a edição inteira.

Os garotos que vendiam jornais na rua costumavam assinar um protocolo quando recebiam seu reparte (e, no dia seguinte, pagavam o que tinha sido retirado). No dia 13 de dezembro de 1968, no meio da pressa e da confusão, a garotada pegava o jornal sem pagar nada, sem assinar nada. E saía na corrida, para vender o mais rápido possível. Outro grupo, de que o próprio Marinho fez parte, junto com boa parte da equipe de Esportes, pegou um montão de jornais e passou a distribuí-los gratuitamente no meio do trânsito. Avisavam: pega logo que a polícia está apreendendo. Solidariedade total: não sobrou um só jornal. O pessoal pegava, dava uma rápida olhada e escondia o exemplar, para não ser apreendido.

O mais interessante é que ninguém teve medo. O pessoal que distribuía o jornal não ficou preocupado por entregar o jornal sem recibo, sem nada. Os jornalistas que participaram da entrega não temeram ser presos. Naquela empresa, especialmente naquele momento, sabia-se que haveria cobertura por parte da direção: se alguém fosse preso, logo apareceria um Mesquita, acompanhado de bons advogados (na época, com a ditadura ainda bamba, isso ainda era possível) para libertá-lo. E o pessoal que distribuía o jornal sem comprovante sabia que o importante para a direção da empresa era menos o dinheiro e mais, muito mais, a circulação das idéias e a luta contra os maus tempos que estavam chegando.

Foi um dia triste. Mas o episódio foi bonito.



O sapateador

Duas informações que apareceram com muita discrição no noticiário sobre os sapatos atirados contra o presidente americano George Bush, em Bagdá:

1. O repórter Al Zaid, que jogou os sapatos, é membro do Partido Comunista Iraquiano. Agiu como ativista político, não apenas como cidadão indignado.

2. Em suas reportagens de Bagdá para a TV Al Baghdadiya, concluía dizendo "Al Zaid, da Bagdá ocupada". É tudo verdade: Al Zaid é o nome dele e Bagdá, como o restante do Iraque, está ocupada. Mas não combina com a imagem de ditadura que se faz hoje do Iraque. Frases desse tipo não eram aceitas no regime iraquiano anterior, de Saddam Hussein.

A propósito, boa parte do noticiário da grande imprensa sobre o repórter Al Zaid teve como origem um site muito bem-feito, o Vermelho, do PCdoB. Endereço eletrônico do Vermelho, onde esse tipo de notícias do Iraque sai em primeira mão: www.vermelho.org.br



Rigoroso inquérito

É preciso acompanhar de perto o caso da agressão do repórter Sérgio Gobetti por truculentos seguranças apelidados de "policiais legislativos" na Câmara dos Deputados. Gobetti, do Estado de S.Paulo, entrou correndo no plenário, mas com crachá e mostrando o documento. Mesmo assim, dois gorilas o seguraram por trás, um deles pelo pescoço. Não é a primeira vez: este colunista, por exemplo, não chegou a ser agredido, mas seguranças (desculpe, "policiais legislativos") insistiam primeiro em chamá-lo de "Baltazar"; e, ao ver que os documentos estavam em ordem, tentaram provar que o crachá tinha sido cedido a "Baltazar" para que ele entrasse clandestinamente no plenário da Casa do Povo.

O perigo é que as investigações se limitem ao "rigoroso inquérito", sem entrar no mérito da questão: o de dar poder de polícia a pessoas despreparadas, para quem a agressão é um ato normal e que deve ser aceito como um fato da vida.



E eu com isso?

Sabe aquela tela sensível ao toque, que a Globo está usando? Pois está cada vez mais popular: no Iphone, em marcas concorrentes, em notebooks. Um fabricante de celulares desenvolveu uma tela dessas de vidro temperado, à prova de manchas e riscos. Uma beleza! E, com a convergência digital, cada vez mais teremos informações em celulares e notebooks com telas sensíveis ao toque – ou, como preferem os vendedores, em touch screen. Basta passar o dedo na tela e saberemos, imediatamente, que:

** "Madonna esnoba Gianecchini e dá atenção para Santoro em festa"

** "Scarlett Johansson assoa o nariz e lenço vai a leilão"

** "Pet shop freqüentado por Britney e Paris pode fechar"

** "Tom Cruise não vai ao aniversário da mulher nos EUA"



O grande título

Dias de festas, dias de plantão, meia equipe de folga, sabe como é. E os títulos mostram direitinho o que está acontecendo nos meios de comunicação:

** "Correa diz não cair em canto das sereiais para pagar dívida"

Correa é Rafael Correa, presidente do Equador. Sereiais deve ser "sereias" digitado às pressas, sem revisão. Ou é algum prato que leva cereais, igualmente com problemas de digitação. Não faz muita diferença: cereais não cantam, sereias não existem, Rafael Correa não diz coisa com coisa.

** "Rede de fast food lança desodorante de carne assada"

Deve haver quem entenda. Mas, se o título exprimir o que diz a matéria, que coisa sensacional! Este colunista acha que desodorante de carne assada vai afastar todos os amigos. Em compensação, atrairá todos os cachorros da rua.

E agora, o melhor título:

** "Veja os bebês de famosos que nasceram em 2008"

Eta, gente precoce!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Entre farpas e afagos


O site Digestivo Cultural publica o especial Blogueiros e Jornalistas. Vejamos, então, alguns pontos de vista sobre o tema.

Jornalistossaurus x Monkey Bloggers


Por Diogo Salles

Imagine, você, aquele almoço de domingo em que absolutamente toda a família está reunida. Pais cachaceiros, mães tiranas, filhos pentelhos, primos folgados, tios tarados, tias palpiteiras, cunhados cafajestes, sogras megeras, noras invejosas, avós ranzinzas... Tem lugar até para o cachorro mijão e o papagaio boca-suja. Misturando tudo isso no mesmo liqüidificador, óbvio que ninguém sairá ileso. E os sintomas dessa epopéia serão os mais diversos. De um lado as crianças correm, gritam, quebram, choram, brigam, fazem guerra de almofada e quase sempre acabam se machucando com as "brincadeiras de mão". Do outro lado, lá onde só fica "gente grande", os adultos se exaltam em verborragias idílicas, empanzinados em seus próprios vícios e embebidos em barris de cachaça. Após a comilança desenfreada, os bacuris seguem em seu pesadelo anárquico. Para os adultos, um breve sal de frutas e a busca pelo sofá mais próximo, onde roncarão como rinocerontes. Ao final do dia, a gurizada já não encontrará mais nada para destruir. Hora de acordar o papai, que, combalido pela ressaca que se avizinha, vai precisar de uma forcinha para chegar até o carro. Tchau. Domingo que vem tem mais.

Vejam como um simples almoço de família na modorra dominical serve como a metáfora perfeita para ilustrar este triste espetáculo. Bem-vindos à "guerra" de blogueiros contra jornalistas. E vice-versa ― como diriam os filósofos do clichê futebolístico. A polêmica até seria interessante, se ficasse na brincadeira. Mas é tola, exatamente porque se pretende séria. Embora este novo clássico da estupidez humana não seja tão vil quanto o da política (PT x PSDB ― ou Lula x FHC, como queiram), não deixa de expor o nosso maniqueísmo em sua face mais personalista e egocêntrica. Jornalistas e blogueiros que me desculpem pela acidez do título e pela ilustração, mas não fui eu quem inventou tais indumentárias e nem proclamou a "guerra".

A verdade é que essas não são apenas brincadeiras com um fundo de verdade. São carapuças que não poderiam ter servido melhor em seus respectivos. Vivo dizendo que nessa batalha falta bom senso. Tanto jornalistas quanto blogueiros sofrem de uma enfermidade bastante brasileira dos dias atuais: a falta de senso de humor e, principalmente, de autocrítica. Essa aversão do brasileiro à crítica já foi abordada pelo Julio aqui e o Polzonoff foi ainda mais longe: "Escrevi um livro totalmente inspirado pela minha tendência à auto-chibata. Parti do pressuposto errado de que as pessoas que escrevem são capazes disso também. Quando, na verdade, a regra é a auto-congratulação e auto-condescendência".

E assim o brasileiro segue, sempre levando-se demasiado a sério, engessado pelos mandamentos da cartilha politicamente correta. Quem não se lembra do piquete de orangotangos formado por causa daquela campanha publicitária do Estadão? Mais surpreendente foi a adesão de bons blogueiros à barricada. Gente que estava a léguas de distância do macaco Bruno preferiu se juntar a ele. A campanha nada mais era do que uma ironia. Um pouco exagerada, talvez, mas era uma boa oportunidade para os blogueiros fazerem uma auto-avaliação, repercutindo o assunto na blogosfera e, de quebra, devolver a ironia ao jornalismo paleozóico. Mas era esperar demais dos simianos. Ficaram tão ofendidos que foi necessária uma retratação do Estadão e um debate para colocar panos quentes no "mal-entendido". Nem tudo, no entanto, está perdido. Parece que o senso de humor foi resgatado e, na Campus Party deste ano, jornalistas e blogueiros aprenderam a aceitar suas diferenças e seus infames apelidos. Ainda que com um sorriso amarelo, mas aceitaram. Só ficou faltando a autocrítica.

E já que nunca houve um voluntário para fazê-la, ofereço aqui os meus humildes serviços. Afinal de contas, sou blogueiro e trabalho em jornal, portanto, também faço parte da "guerra". E, como estou nessa "guerra" a contragosto, sinto-me no direito de destroçá-la. Só não vale vestir a carapuça de novo, combinado? Não quero que ninguém perca aquele senso de humor conquistado a duras penas. Enquanto ambas as partes se autoproclamam como a salvação da lavoura, berrando as mesmas bravatas, trocando farpas e acusações, o leitor assiste impávido a este espetáculo dantesco onde só há perdedores.

Mas, enquanto a "guerra" acontece, será que os jornalistas se desviam das pautas mais interessantes ou deixam de apurar devidamente suas matérias? Será que, pela "guerra", os blogueiros rejeitam uma leitura ou pesquisa mais aprofundada para redigir um post de maneira minimamente decente? É possível. É provável. Saindo do pantanoso terreno dos achismos, vamos aos fatos. O jornalismo ainda não compreendeu o fenômeno da internet. É estranho que uma boa parcela de jornalistas ainda continue ignorando todo o potencial da web, acreditando que todas as respostas podem ser lidas somente no papel. Mas, se o jornalismo não precisa mesmo superar o período paleozóico, por que esses mesmos pterossauros, antes de alçar vôo, sempre dão uma passadinha lá no Google e nos portais?

Apesar de tudo, alguns medalhões continuam olhando a internet com certa desconfiança e desdém. Enxergam-na apenas como mais uma ferramenta. Ou, em casos mais extremos, como uma empregada a seu serviço. A internet pode ser (e é) muito mais do que isso. Falta enxergar as inúmeras possibilidades que ela oferece. De volta ao planeta dos macacos, certos blogueiros também não sabem (e não querem) ficar no seu galho. Nem bem chegaram ao mundo e já partiram para o confronto, querendo tomá-lo de assalto. Decretam, aos berros, o "fim do papel", a "democratização da informação" e outras pérolas do populismo on-line. Esquecem que, para tanto, precisam deixar de molhar as calças.

E alguns homo sapiens da net não usam fralda com flocgel ultra-absorvente, logo, não há como limpar a sujeira que fazem. Mas estranho mesmo é tentar explicar por quê muito do que se vê nos blogs são reproduções ou opiniões sobre o que se acabou de ler na grande mídia. Cômico e trágico. Um criticando o outro, mas, ao mesmo tempo, um usando o outro no trabalho diário. A metáfora inicial serviu apenas para mostrar que, embora "crianças" e "adultos" usem linguagens diferentes para se expressar e que, na maioria das vezes, não conseguem se entender, são "parentes" e precisam estar lado a lado. Esta é uma equação de difícil resolução e será muito difícil achar um consenso, mas dizem que sempre encontramos na simplicidade as respostas mais complexas.

De todas as questões levantadas até agora, só duas delas me parecem já respondidas de forma bem clara. A primeira é que um jovem escriba deve se iniciar na internet, ponto final. Através dos blogs, sites especializados etc., ele poderá experimentar seu texto e evoluir. Mais importante, terá a recepção quase que imediata dos leitores, o que poderá levá-lo a novos caminhos e descobertas. E tudo "di grátis". Se a empreitada der certo, é hora de arriscar algo mais ambicioso. Se não der, ninguém foi à falência e ninguém saiu ferido (a não ser as tradicionais viúvas e primas donas infiltradas na net). A outra é que a internet deixou de ser uma ferramenta há um bom tempo para se tornar uma realidade, queiram ou não. Com seus pouco mais de 10 anos, ainda incipiente, mas uma realidade. O que falta ainda (e vai levar alguns anos para isso) é adquirir a mesma relevância e credibilidade dos jornais. E esse período de maturação pode ser mais curto do que acreditam os céticos. Ou mais longo, caso os blogueiros insistam em sua cruzada apocalíptica.

Isso posto, a conclusão ― ridiculamente óbvia, mas, ainda assim, ignorada ― é que existe conteúdo de qualidade tanto na web quanto no papel. Claro que existe muito lixo nos dois também, mas de nada adiantará cada um varrer o seu para debaixo do tapete e atacar o outro lado. É preciso separar a matéria-prima e o material reciclável daquilo que é lixo não-reciclável. Espero que os jornalistas não fiquem chateados comigo. Afinal, sou apenas mais um filhote de dinossauro que acabou de sair da casca do ovo e está querendo avançar na pré-história. Gostaria também que os blogueiros, meus irmãos símios, perdoassem minha sinceridade, mas para arrotarmos caviar, precisamos comê-lo antes. Ah, não nos esqueçamos da fralda com flocgel!

Nota do Autor
O conteúdo desta coluna e sua data de publicação podem ter sido mera coincidência ou fruto de uma teoria conspiratória.