Mostrando postagens com marcador convergência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador convergência. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Histórias reais da era das convergências tecnológicas II


A versão tecnoumana do nascimento do computador pessoal

Por Álvaro Larangeira

Todo dia ele fazia tudo sempre igual. Acordava a contragosto às 6h, tomava o café descafeinado, deglutia uma fatia de pão pós-transgênico e findava o desjejum com a laranjada sem laranja. Retirava-se da mesa e partia para as leituras. Ulisses nos primeiros 60 minutos e Heidegger e Heráclito na hora seguinte. O restante do horário de estudos, uma hora e meia, reservava ao grego e alemão. Para ler nos originais, justificava.

Todo dia Divininho fazia tudo sempre igual a uma criança comum, se levada em consideração a idade: seis anos. Isso até aquela data, 12 de outubro. Neste dia, despertou perto da uma, sem haver como o tirar da cama antes, menosprezou o brequefeste e fez pouco caso das obras completas dos autores sobreditos e do livro do James Joyce, no qual empacara na duomilésima nona página havia 12 meses.

Para surpresa da família, nem falou sobre a validade da hermenêutica gadameriana aplicada às vicissitudes da existência do capitalismo socialista quando em apuros ou da cientificidade do pensamento científico no cientificismo do não-ser sabe-se lá quem, como costumava proferir nos costumeiros diálogos dialéticos e dialógicos com Paul Rabbit, seu gato e único ser inteligente em condições de confabular com o menino graças às seis vidas passadas - das quais nada sabemos - e também por causa da deficiência do ensino fundamental ainda carente duma epistemologia pedagógica mais adequada aos anseios intelectivos da infância.

Bombado, ele falou. “Hoje tô bombado.” A mãe, sempre a mãe, estranhou a frase advinda daquele indivíduo com meia dúzia de anos. Terei trocado o café pelo chá de cogumelo?, questionou-se a matriz do nosso personagem, acossada pelo remorso das experiências metafísicas pretéritas. Dúvida logo dissipada, pois Divino Júnior desprezara a alimentação matinal, afora ninguém mais sorver este tipo de líquido.

Porém, ele parecia, sim, fora da casinha. Divininho emperiquitou-se com o fardão tamanho míni a ele presenteado pela Academia Brasileira de Letras Mirim, quando da assunção [ô loco!] à cadeira n° 1001 da ilibada instituição literomaníaca, e chamou sua mãe – a dele, não a sua. Hoje é o Dia das Crianças? Ãrrã, ouviu. Posso pedir qualquer presente? Em tese, sim, foi a resposta. Então quero ser um IMACSUNGHPDELLCJTX2075. Ok.

Nascia assim o primeiro computador pessoal da humanidade. Aliás, pessoalíssimo.

============

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Histórias reais da era das convergências tecnológicas


Conseqüência presumível

Por Álvaro Larangeira

Só podia dar nisso: Patrícia estava grávida. Apenas 13 anos e embuchada – pode parecer grosseira, quiçá cruel, porém é a palavra adequada para a situação. Quem observava a menina (menina?) previra o desfecho. Aquele grude transpusera a normalidade. Tornara-se uma tara. Isso mesmo, tara. A avó, sempre mais atenta e respaldada pela inata percepção pan-óptica feminina, percebera a atração doentia da neta e até a aconselhara a largar aquela – perdoai-nos, senhor, pelo termo – coisa. “Coisa, não, vó!”, retrucava Paty. Para a mocinha, ele era solidário, cúmplice e incapaz do gosto pelas infidelidades inerentes à vida. Em resumo, o companheiro ideal.

A avó alertou a filha, e esta resolveu recorrer às conhecidas propriedades psicoterapêuticas da leitura em casos propensos à lascívia precoce. Presenteou a protoadolescente com a literatura condizente à idade. Primeiro, Alice no País das Maravilhas, Meu Pé de Laranja Lima e, já projetando a carreira artística, O Pequeno Príncipe. Nada. Em seguida, esperançosa da eficácia da filosofia no abrandamento dos espíritos inquietos, mimoseou a caçula com Crítica da Razão Pura, do Kant, e Meus Demônios, do Morin. Inútil. Sem sucesso, apelou: A Função do Orgasmo, do Reich, e Kama Sutra para Adolescentes, dalgum tarado. Nem cócegas.

Simples. Patrícia queria apenas o seu objeto do desejo e mais nada. Começara com conversinhas ao ouvidinho e intermináveis risadinhas. Depois, joguinhos. Nos últimos tempos, fotinhos e videozinhos pra lá e pra cá. Pronto, o distinto ser passou a fazer parte daquele tenro corpinho auroreal. Era manhã, tarde e noite. Inclusive madrugadas. Na escola, nas escadas e nas baladas. O tempo inteiro. Daí a desconfiança daquelas almas ligadas à salutar espiada da vida alheia. Viam-na carregá-lo tal qual um tesouro, um pote de ouro, uma – remitais novamente, ó senhor, pela comparação – bíblia.

E assim foi, até o fatídico dia.

- Mãe, estou grávida.
- De quem? – perguntou a genitora daquele cristalino bibelô, apenas por praxe.
- Não sei.

E era verdade. Patricinha, assim chamada pelas amigas patricinhas, tinha três celulares. Portanto, desconhecia quem fosse o verdadeiro pai da criança. Uma coisa, porém, era certa, e amainava a angústia da família, agregados e entornos: conforme as funções do bebê, será fácil reconhecer a paternidade. MP5, com câmera digital 7 megapixels? Papai Ericsson. Bluetooth e acesso à internet? Papai Motorola. Tudo isso e mais um pouco – alguns diamantes, por exemplo? Só pode ser filho do Goldvish. Pronto.