O papel de intelectual é ter a coragem de andar na contramão. Mas não na contramão da história. Isso é um clichê válido e complexo de aplicar. Intelectual orgânico, ao contrário, defende uma ideologia sem jamais criticá-la. Foi assim com Jean-Paul Sartre voltando da União Soviética e tecendo elogios à liberdade que reinaria por lá. É assim com intelectuais israelenses que nunca encontram falhas nas políticas do seu país. Justificam sempre. O ministro Tarso Genro foi criticado quando errou, no caso da entrega dos atletas cubanos, e mais ainda quando acertou, ao conceder asilo político ao italiano Cesare Battisti. Tarso Genro merecia elogios. O lugar-comum limita-se a dizer que Tarso Genro está protegendo um terrorista. Battisti participou dos movimentos armados italianos da década de 1970. Foi condenado à revelia por quatro assassinatos que não cometeu. As provas contra ele nunca passaram da delação premiada de Pierre Mutti, terrorista arrependido, cuja pena diminuía na medida em que entregava companheiros. Aquilo que não sabia ou não existia, Mutti inventou. Transformou Battisti em bode expiatório. Vários intelectuais renomados do mundo sabem disso. O francês Bernard-Henri Lévy, convidado do ciclo de conferências Fronteira do Pensamento, aproveitou para ir a Brasília visitar Battisti e interceder por ele junto ao ministro Tarso Genro. Fernando Gabeira também defendeu Battisti. A escritora francesa Fred Vargas apresentou provas da inocência de Cesare Battisti. O caso é assim: o advogado de Battisti e de outros militantes aproveitou três folhas em branco com assinaturas do cliente e escreveu cartas terminando de incriminá-lo. A sequência dos fatos revela que Battisti já havia abandonado o movimento quando os crimes aconteceram. Bernard-Henri Lévy, que está longe de ser um marxista, vê uma armação da extrema-direita italiana atual contra o ex-terrorista completando uma vingança anterior da extrema-esquerda. Battisti declarou que nunca matou e poderia jurar isso olhando nos olhos dos parentes das vítimas. O exame grafológico das cartas supostamente enviadas por Battisti em 1982 provaram que elas eram falsas e com uma assinatura antiga do acusado. Durante algum tempo, Battisti não pôde declarar a sua inocência para não ser considerado um traidor pelos companheiros de luta. Lévy e Vargas não duvidam de que se um dia Battisti voltar a uma prisão italiana, será executado pelos inimigos. Dar asilo político a Battisti não significa legitimar sua participação num movimento ilegal, mas dar-lhe proteção diante da fragilidade dos elementos que determinaram a sua condenação. Battisti é o símbolo de uma época que a turma de Berlusconi gostaria de explorar politicamente. Tarso Genro agiu como intelectual ao conceder o benefício da dúvida ao prisioneiro Battisti. Errou ao ter cedido às pressões dos amigos cubanos no episódio dos atletas devolvidos para a ilha de Fidel. Quem tem posição monolítica, sempre de um lado só, não é intelectual, mas adepto de uma doutrina. Pode ser que exista uma lógica de esquerda clássica nas atitudes de Tarso Genro, entregando aos comunistas dois atletas que pretendiam abandonar o barco e concedendo asilo a um esquerdista dos velhos tempos. Prefiro imaginar que Tarso Genro errou num caso e, como homem inteligente e aberto, redimiu-se no outro, considerando as informações de intelectuais de horizontes ideológicos muito diversos.
Quem tem boca vai a Roma: a incrível "viagem de trabalho" dos funcionários da Emater
Do RS Urgente
No momento em que os deputados da base do governo Yeda Crusius (PSDB) comemoravam na Assembléia a aprovação do projeto criando a Secretaria da Transparência, uma nova denúncia de irregularidades envolvendo integrantes do Executivo era veiculada em uma matéria do jornalista Giovani Grizotti, na RBS TV (vídeo abaixo).
O chefe de gabinete da presidência da Emater, Luiz Antonio Machado Vial, passou quase um mês em Roma e adjacências, de 25 de outubro a 22 de novembro, com despesas pagas pelo Estado, em uma viagem que tinha como objetivo "conseguir convênios, divulgar e buscar patrocínio" para dois eventos da Emater: o Congresso Internacional de Pecuária de Corte e o Fórum O Campo Abre Caminhos. Primeiro detalhe: o congresso foi realizado dia 21 de novembro, antes mesmo da viagem terminar. “Para esses dois eventos eu não trouxe patrocínio. Isso é verdade”, admitiu Vial ao jornalista.
Sem saber que estava sendo gravado, Vial confirmou que sua esposa, Sandra Martini Vial, também esteve na Europa a serviço do governo. Sandra Martini é diretora da Escola de Saúde e irmã do ex-secretário-geral do governo Yeda, Delson Martini. Num primeiro momento, ele negou que tivessem se encontrado na Itália. Depois, admitiu que passaram um final de semana juntos.
Vial comeu muito bem em Roma. Dinheiro não faltou. A "contabilidade criativa" do governo Yeda trata bem, ao menos, alguns funcionários. Só em diárias para alimentação, o chefe de gabinete recebeu US$ 6.700,00 dólares (cerca de R$ 16 mil). Foram 578 reais por dia para saborear a cozinha romana. Também teve a hospedagem paga pelo Estado e recebeu outros US$ 1.577,00 para gastos com aluguel de carros e combustíveis. O diretor administrativo da Emater, Cilon Fialho da Silva, também viajou a Roma, mas ficou lá oito dias. As explicações dos envolvidos e do presidente da Emater, Mário Ribas Nascimento, são bastante esburacadas e envergonhadas. Ao todo, a expedição a Roma custou mais de R$ 40 mil aos cofres públicos.
A Emater, cabe lembrar, foi uma das primeiras vítimas da política de déficit zero do governo Yeda. Quatrocentos funcionários foram demitidos sob a alegação de falta de recursos. Nada como um governo transparente e com coragem para cuidar das finanças públicas.
O programa italiano "Questa Domenica", apresentado por Paola Perego, tinha políticos em dois estúdios. Em um deles, parlamentares eram sabatinados por crianças. No outro, a própria Paola fazia perguntas para o ex-presidente do senado e ex-primeiro-ministro Giulio Andreotti.
Tudo corria bem até Paola perguntar a Andreotti sobre o futuro das crianças...