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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Circo da Notícia


CASO PAULA OLIVEIRA
Xingar é fácil, apurar é bem mais difícil

Por Carlos Brickmann

Tudo bem, suíço é chato mesmo. Se você entra num cinema, tem de ocupar a cadeira ao lado do último que se sentou, mesmo que a sala esteja vazia. Os italianos, no meio de toda aquela confusão que os caracteriza, geraram Michelangelo, Mascagni, da Vinci, Dante, Bernini, Verdi, Rossini, Rafael. Os suíços, no meio de toda aquela ordem, conseguiram criar o relógio-cuco e alguns queijos.

Pronto: já falamos mal dos suíços. Agora entremos no caso de Paula Oliveira. Nossos meios de comunicação repetiram todos os erros do caso Escola Base; e as consequências só não foram mais graves porque o caso ocorreu fora do Brasil. As informações foram aceitas sem contestação. A imprensa não fez o mínimo indispensável (por exemplo, falar com a mãe da moça, que estaria com ela ao telefone no momento do ataque, para saber o que teria ouvido; ou entrevistar um médico sobre a possibilidade de uma pessoa consciente ser cortada sem que houvesse sequer um tremor nos riscos. Seria possível que a moça não tivesse nem contraído os músculos de dor ao ser riscada por estilete?). E, já que não havia fatos a narrar, saiu batendo nos suíços, como se lá houvesse uma caça aos estrangeiros. E, dos países europeus, a Suíça é dos menos xenófobos.

O SVP, por exemplo, é um partido detestável. É ultranacionalista, é contra a imigração, essas coisas. Mas não é neonazista. O SVP integra um governo democrático, que trata os imigrantes melhor que os espanhóis, onde os guardinhas de aeroporto maltratam os brasileiros (e provavelmente outros visitantes) e não provocam, da parte de nossas autoridades, reação tão violenta.

Um detalhe interessante é a justificativa de muitos jornalistas para chutar da medalhinha para cima: basearam-se em portais que mereceriam confiança. Se é para repetir o que publicaram "portais confiáveis", por que jornais, por que tevês, por que rádios, por que outros portais? Por que não ficar só naqueles confiáveis?

O pai agiu certo: achou que a filha tinha sido atacada e chamou a imprensa. Caberia à imprensa, diante dos fortes indícios de que tinha acontecido alguma coisa (e os indícios iniciais eram fortes), noticiar o fato, mas deixando para o leitor uma porta aberta, que demonstrasse que não se tratava de uma história sem falhas. Caberia levantar dúvidas, pensar sobre a história, procurar congruências e incongruências. E, principalmente, não caberia de forma alguma atacar outro país, considerando-o responsável por um evento que, mesmo que tivesse ocorrido, poderia ter sido fortuito.

A propósito, os jornais suíços incorreram no mesmo erro: passaram a atacar o Brasil, a dizer que aqui as notícias são inventadas, que 72% dos brasileiros não gostam de imigrantes – de onde tiraram esses números, ninguém sabe (e este colunista, neto de imigrantes do exterior, filho de imigrantes do interior, não encontrou ainda todo esse povo xenófobo que a imprensa suíça está vendo).

Besteira: transformou-se um incidente numa espécie de jogo de futebol, em que o importante é ganhar no grito, não importa quem tenha razão.



A Folha e os patrulheiros

A Folha de S.Paulo publicou editorial referindo-se ao Governo militar como "ditabranda". Na opinião do jornal, a ditadura brasileira, com todos os seus excessos e violência, não atingiu os níveis de barbárie de outras ditaduras latino-americanas. Não é a opinião deste colunista, que divide a ditadura brasileira em dois períodos distintos: o primeiro, em que houve determinados níveis de violência, e o segundo, em que a violência se aprofundou terrivelmente. E, por chamar a primeira fase de "ditamole", um leitor protestou duramente e manteve com este colunista uma excelente troca de cartas, muito bem embasada de sua parte.

A opinião da Folha não é a deste colunista, mas o jornal tem todo o direito de tê-la; da mesma forma, os leitores têm todo o direito de discordar do jornal, no todo ou em parte, de manifestar-se com veemência e indignação, de levar suas divergências até o ponto de eventualmente deixar de lê-lo. Não é aceitável, porém, que patrulheiros ocultem sua militância política e escrevam como se fossem leitores comuns, sem interesse ideológico especial – ou, pior ainda, escondam-se sob pomposos títulos universitários e ocultem sua intensa atividade partidária.

É dentro dessa perspectiva que deve ser avaliada a dura resposta da Folha aos professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato ("A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro (...) Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente cínica e mentirosa."): nenhum dos dois se identifica como militante de esquerda, nenhum dos dois se identifica como militante do PT, nenhum dos dois se identifica como simpatizante do MST. É como se fossem leitores comuns, não-militantes, mas que não esquecem dos títulos universitários para dar mais peso a suas opiniões.



Erramos

Sérgio Davila, leitor desta coluna e correspondente da Folha de S.Paulo nos EUA, pegou um erro básico publicado aqui: o caso do ladrão de cavalos, antepassado comum de uma genealogista e de um senador, é uma lenda de internet. A história era ótima – tão boa que deveria ter acionado as antenas deste colunista. O erro é ainda pior porque várias versões do caso estão citadas entre as lendas da Internet, no site http://www.snopes.com/politics/humor/horsethief.asp



Faltou dizer

Dos demitidos da Embraer, a maior parte é de São José dos Campos, SP, berço da empresa. Três mil pessoas são 0,5% da população da cidade. E as coisas não param por aí: há dezenas de empresas na região cujo principal ou único cliente é a Embraer, e que terão de cortar fundo. Apenas como comparação, três mil demitidos em São José equivalem, como porcentagem da população, a 12 mil desempregados em Belo Horizonte. Os meios de comunicação preferiram uma cobertura macroeconômica, mas faltou mostrar o que acontece a uma cidade em que 0,5% da população perde o emprego de uma hora para outra (e mais um monte de gente sabe que também está à beira do corte).

É numa hora como esta que se lamenta a falta que fazem na redação repórteres como Ricardo Kotscho, Ewaldo Dantas Ferreira, Fernando Portela. Estes nem precisariam de pauta, ou de ordem do chefe de reportagem: já chegariam à redação com a mochila de roupas, procurando a requisição de transporte e de verba.



Bye, Bill

Ele ocupou um cargo que nos jornais de hoje não existe mais. Nos velhos tempos, como as sucursais eram pequenas e as comunicações deficientes, os jornais do Rio e de São Paulo tinham uma espécie de convênio de aproveitamento mútuo de informações. O Jornal do Brasil colhia as informações paulistas na Folha de S.Paulo. E quem fazia o meio de campo era Guilherme Duncan de Miranda.

Parece fácil, mas não era. Os repórteres, ciumentos de suas matérias, muitas vezes as escondiam do representante do outro jornal. Bill, muito hábil, extremamente simpático, foi conquistando todo mundo e conseguindo as matérias numa boa (detalhe curioso: em suas folgas e férias, quem aparecia na Folha para pegar matéria era o hoje ministro Miguel Jorge).

Esses convênios, creio, nunca terminaram; mas se esgarçaram com o tempo. O JB acabou levando para sua sucursal boa parte da Folha. Era um timaço (no qual este colunista se incluía): Ebrahim Ali Ramadan, Bernardo Lerer, Laerte Fernandes, Rolf Kuntz, Guilherme Miranda, Miguel Jorge, grandes fotógrafos como Manoel Motta e Oswaldo Maricato. No Rio, a redação era comandada por Alberto Dines, tendo como lugares-tenentes Carlos Lemos e Luís Orlando Carneiro; na chefia da reportagem, Fernando Gabeira – ele mesmo.

Não era lugar para amadores, e Bill Duncan sempre esteve entre os melhores. Foi para o Jornal da Tarde, que surgia, junto com quase toda a redação paulistana do JB; mais tarde, bem mais tarde, foi um dos comandantes da Sucursal do JT no Rio. O Rio ficava mais perto de sua cidade natal, Campos – dele e de sua esposa, Cláudia, também uma grande figura (ambos devem estar no livro Guiness, quesito Casal no Jornalismo, com seus 40 anos de casamento).

Bill, atraído por uma grande empresa, a Esso, coordenou durante anos, primeiro como funcionário, depois como sócio de um escritório especializado (onde era sócio de outro craque, Ruy Portilho), o Prêmio Esso. Foi um dos que convenceram os novos donos brasileiros da Esso a manter o prêmio, o mais importante do jornalismo brasileiro.

Guilherme morreu na semana passada, depois de seis anos de luta contra o câncer. Foi um jornalista importante, competente, sério, inatacável. Mas não é possível lembrá-lo só por este lado. Bill Duncan sempre foi um grande companheiro, pronto para ficar ao lado dos amigos – e quantos amigos! Para usar uma expressão insubstituível, em yiddish, Bill era mensch – gente boa.



...e o eco responde

De acordo com a notícia, várias línguas estão em risco de extinção no Brasil. Em dois casos, o kaixana e o apiaká, cada língua é falada por apenas uma pessoa. No caso do kaixana, só Raimundo Avelino, de 78 anos, fala a língua.

Só uma dúvida, que a reportagem bem que poderia esclarecer: se só Raimundo Avelino fala a língua, com quem é que ele fala?



Como...

De um grande portal jornalístico:

Cavalo da PM dispara após jogo

Animal atuava no clássico entre Cruzeiro e Atlético-MG.



...é...

De um grande jornal:

Bombeiros isentam muro de culpa no clássico

O muro, espera-se, será imediatamente posto em liberdade.



...mesmo?

Este saiu de um press-release:

Dia da Mulher regado a morango e champanhe no Spa (...)

Se não falha a memória deste colunista, a proposta do Spa citado não era, antigamente, conhecida como "bacanal"?



E eu com isso?

Demissões, quebras, empréstimos trilionários (quando é que o caro leitor pensou que leria, sem mexer uma sobrancelha, a notícia de que o plano Obama envolve dois trilhões de dólares?), mistérios – como é que o mercado de carros se mantém razoavelmente aquecido nesse clima terrível?

Mas a vida continua. Luana Piovani, por exemplo, foi à praia no Rio. Sozinha! Roberta Close toma caldo no mar de Ipanema, no Rio, e exibe celulites. Amy Winehouse mudará de casa. E há muito mais notícias de onde estas saíram:

1. Tony Ramos compra revistas no Leblon

2. Thiago Lacerda discoteca no Bailinho

3. Kevin Federline é visto bem acima do peso

4. Sérgio Marone é fotografado saindo de lavanderia no Rio

5. Ronaldinho perde seu cachorro em Milão

6. Fátima Bernardes faz caminhada com amiga, no Rio

E, naturalmente, há notícias sobre a crise mundial:

Com recessão global, ataques de tubarões diminuem no mundo



O grande título

Há excelentes exemplares nesta semana. Comecemos com dermatologia, cosmetologia, beleza, biologia, tudo junto:

Roedor pelado dá pistas para fugir das rugas

Continuemos tratando de medicina, problemas de saúde, aviação:

Vôos cada vez mais longos aumentam crises de saúde em aviões

Coitados dos aviõezinhos! Os passageiros, vá lá, não podem manter a saúde viajando apertadíssimos, sem espaço nem para ler, naquelas poltronas que o ministro Nelson Jobim disse que iria mandar trocar e esperando a hora em que vão lhe botar um passageiro no colo. Mas os aviões, puxa, com tanto espaço lá fora!

E, mudando um pouco os hábitos desta coluna, o melhor título da semana não é exatamente um título: é um texto. Mas vale:

No segundo, aos 44, ele comeu um zagueiro e deu com capricho para Wilson fazer o segundo gol do rubro-negro pernambucano

Deve ter sido um espetáculo assaz singular.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Incrível: bandidos armados!





Quando eles assaltarem uma via expressa como a Linha Vermelha desarmados, nos avisem.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Circo da Notícia


PAUTA DA HORA

Barack Obama e o primeiro-cachorro

Por Carlos Brickmann em 11/11/2008

O novo presidente dos Estados Unidos prometeu dar um cachorro às filhas, para compensá-las pela mudança de Chicago, onde tinham sua vida e suas amigas, para Washington. Prometeu também que, diferentemente do que ocorreu durante a longa campanha à Presidência, reservará muito mais tempo para ficar com a família. Vão até, como antigamente, jantar todos juntos com freqüência.

Isto é o que se sabe, o que os meios de comunicação divulgaram sobre o novo ocupante da cadeira mais poderosa do mundo. O que ele pensa ainda não foi divulgado: como pretende enfrentar a crise econômica, como lidará com as ambições nucleares do Irã, que caminho seguirá para enfrentar o terrorismo, de que maneira buscará melhorar as relações com a Rússia, que estão no pior nível desde que a União Soviética se dissolveu.

E a energia? Parece estar claro que boa parte da alta do petróleo, há alguns meses, se deveu à especulação financeira, e isso sangrou as finanças não apenas dos Estados Unidos, mas também de nações muito pobres. Quais as idéias do presidente a respeito de petróleo, álcool, biocombustíveis em geral, aquecimento global? Pretende lutar pelo álcool de milho, prejudicando os países produtores de cana? Que é que pode acontecer com a aplicação dessas idéias no relacionamento com a América Latina e, especialmente, o Brasil?

O jornalista Luis Weis, sempre preciso, definiu a cobertura jornalística dos primeiros dias após a eleição de Barack Obama como "onda Caras na comunicação de massa" (ver "Os Obamas vão jantar juntos!"). E não deve ser muito difícil, para quem estiver disposto a pesquisar a vida política de Obama, encontrar aquilo que pensa sobre alguns assuntos de interesse mundial. Mas o primeiro-cachorro (que será um vira-latas, segundo informou o presidente eleito) sem dúvida tem mais charme.

A cobertura das eleições pela imprensa brasileira foi ótima: até as previsões deram certo. Falta completá-la, agora, com as idéias do presidente eleito.


As contas, lá e cá

A cobertura foi ótima, mas quem disse que foi perfeita? As contas, por exemplo, parecem ser um dos pontos fracos também dos jornalistas lá de fora (afinal, se eles soubessem fazer contas, estariam ganhando dinheiro, em vez de botar uma letrinha atrás da outra). As primeiras notícias da TV mencionavam 1 milhão de pessoas no comício da vitória de Barack Obama, num parque de Chicago. Um pouco depois, o número já era de meio milhão. Mais tarde, 300 mil. A última notícia era de 100 mil.

Aquela continha simples – mede-se a área e, conforme a concentração de público, calcula-se de uma a seis pessoas por metro quadrado – ficou de lado.


Preconceito, de novo

É difícil ser mulher, também na política. De homens a imprensa diverge, com homens os jornalistas debatem, as brigas são imensas, mas normalmente a intimidade é preservada. Com mulheres é diferente. Um colunista, pouco antes das eleições, criticou as posições políticas de Sarah Palin, a vice da chapa republicana de John McCain, usando uma expressão chula – a tal ponto chula que os próprios jornais em que a coluna foi publicada deveriam evitá-la. Seriam as expressões chulas absolutamente necessárias – digamos, a reprodução do que a candidata tivesse dito, ou a transcrição de uma troca de insultos? Não: expressões civilizadas, urbanas, educadas, seriam sinônimos perfeitos daquilo que foi escrito. A escolha foi deliberada, apenas porque a vice era mulher. Coisa feia!


Dica

Vale a pena visitar o ProjetoSecreto. Traz idéias interessantes sobre uso de internet em campanhas políticas, idéias já testadas no exterior (e vitoriosas com Barack Obama).


Denúncia vazia

Há cerca de 60 anos, um tcheco que trabalhava para a espionagem americana foi preso em Praga. Agora, uma revista tcheca informou que, segundo os arquivos da época, quem denunciou o espião foi o hoje escritor Milan Kundera (A Insustentável Leveza do Ser), na época com 20 anos de idade. Kundera diz que jamais havia ouvido falar nessa história. Quem o conhece confirma: Kundera não é dedo-duro, jamais teve algo a ver com serviços secretos (ver, neste Observatório, "Escritor acusado de dedo-duro").

E daí? Daí, nada. Embora a revista tcheca não tenha feito qualquer acusação contra ele, informou que a notícia existia nos arquivos de 1950. Para boa parte da opinião pública, é suficiente: alguma ele aprontou. É o mesmo fenômeno que ocorre quando alguém é preso e prova sua inocência: quem acredita inteiramente nele? É como a história do rapaz que, certa vez, salvou uma velhinha que estava sendo assaltada por dois bandidos. Um mês depois, alguém o reconheceu na rua e perguntou: "Não foi o senhor que esteve envolvido no assalto a uma velhinha?"

Que fazer, então? Fingir que a notícia não existe? Este é um tema interessantíssimo de debate jornalístico: como lidar com esse tipo de notícia. Todos têm certeza de que Kundera não tem nada a ver com espionagem, mas ao mesmo tempo é fato que a informação está no arquivo. Além de tratar cada caso com a máxima cautela, que mais um jornalista pode fazer para evitar o assassinato de reputações?


Como lidar com a denúncia

Neste momento, a propósito, um jornalista de Brasília fez uma série de denúncias contra uma personalidade ligada à política brasileira, incluindo números que seriam de contas bancárias clandestinas no exterior. Até o momento, aparentemente, a tática utilizada pelo cavalheiro denunciado é a do silêncio: não se manifestou. Talvez esteja preparando alguma ação judicial, mas ainda não houve nada público nesse sentido (não anunciou, por exemplo, que recorreria à Justiça). As denúncias foram feitas publicamente, por jornalista plenamente identificado. E, de maneira surpreendente, ninguém foi ainda ouvir o acusado. Se a denúncia é vazia, sonegam-lhe o direito de se defender; se acreditam que o acusador não é idôneo, mais um motivo para oferecer espaço e tempo para a defesa.

Ou será que manter-se em silêncio é a melhor tática para que eventuais acusações sejam esquecidas?


Abaixo de zero

Está saindo nos jornais e revistas um anúncio fantástico, de uma importadora de carros coreanos: informa que já recebeu o subsídio do governo e, por isso, pode oferecer juros mais baixos.

Acontece que, até agora, esta importadora oferecia seus carros a juros de 0% ao mês – exatamente, zero por cento. Este colunista talvez tenha faltado a alguma aula importante, mas como é que a importadora vai fazer para oferecer juros mais baixos? Vão pagar algum para quem comprar carro a prazo?


Good news are no news

O presidente Lula, em Tucuruí, no Pará, se queixou de que a imprensa prefere as notícias ruins, "como se nada acontecesse de bom no país". O presidente tem toda a razão – só que as coisas são assim mesmo. Ninguém vai noticiar que 16 milhões de passageiros de ônibus chegaram normalmente ao destino. Notícia é quando, destes 16 milhões, dez se machucam num acidente. Ninguém vai noticiar que, dos prédios de mais de três andares construídos nos últimos 30 anos, nenhum apresenta defeito estrutural. Mas experimente um deles desabar. Os meios de comunicação destacam os acontecimentos não-normais. Como dizem os americanos, "boa notícia não é notícia".

Há uma profusão de publicações, basicamente destinadas a noticiar a vida de pessoas famosas, que dão muitas notícias boas. Mesmo essas, entretanto, não perdem a chance de publicar que alguém bateu em alguém por causa de alguém.


Papel no chão

O que irritou o presidente não foi nada muito recente: foi a foto do ano passado, quando inaugurou obras em Tucuruí e o flagraram comendo um bombom e largando a embalagem no chão. O presidente que nos desculpe, mas ele mesmo, se estivesse vendo a TV, gostaria mais de ver o papel largado no chão ou o discurso de "nunca antes na história desse país"?


Como...

De um grande jornal:

"Além de terem roubado o carro da vítima (...), os assassinos fugiram com uma pasta que pertencia a Christóvão, cujo conteúdo será investigado pela polícia."

Se a pasta foi levada pelos assassinos, como irá a polícia investigar seu conteúdo?


...é...

Num importante portal noticioso:

** "Policiais fazem parto embaixo sob viaduto do Largo da Concórdia"

Isso é que é garantir um teto ao paciente: não apenas embaixo do viaduto, mas também sob ele.


...mesmo

De um press-release:

** "Mal humor pode ser doença e tem nome: distimia"

Também pode ter outro nome: texto "mau" cuidado.


Egoísmo

Veja só o que certa imprensa anda ensinando:

** "As nove regras para tomar chope do Editor do (...)"

Por que não deixar o editor tomar o chope dele em paz, e pedir outro para a gente?


E eu com isso?

E pensar que existe gente mergulhada na vida de Barack Obama, tentando descobrir seus pratos preferidos, o nome que será dado ao primeiro-cachorro, a escola que suas filhas irão freqüentar em Washington (e, claro, o tipo de proteção que lhes será oferecido, e que inevitavelmente vai atrapalhar sua vida social). Será que ele pedirá ao Congresso que suspenda o bloqueio a Cuba?

Mas há outras preocupações menos estressantes (até mesmo sobre o tema dominante nos noticiários, a eleição de Barack Obama)

** "Sem dormir direito, Obama curte vitória malhando na academia"

Há notícias sobre entomologia:

** "Abelhas conseguem contar apenas até quatro"

Pode-se também acompanhar a evolução do mercado imobiliário:

** "Escocês põe papagaio à venda e dá casa de brinde"

Estudar o comportamento humano:

** "Pink já colocou fogo em quarto durante sexo e bebedeira"

Ou esquecer todos esses temas sérios e preparar-se para conversas sem compromisso:

** "Demi Moore vai a festa de Halloween fantasiada de abóbora"
** "Marcelo Serrado busca filha no balé e encontra Ingrid Guimarães"
** "Beijoqueira, Daniele Suzuki almoça com o namorado"
** "Papa-defuntos bêbado persegue mulher"
** "Gilberto Gil passeia com mulher por Ipanema"
** "Fábio Assunção almoça sozinho na Barra"
** "Agente é processado por tirar sarro do tamanho do pênis de Pitt"


O grande título

Há coisas bem interessantes, que incluem uma excelente imitação de índio de filme americano:

** "Juiz ordena SP indenizar agente feito refém por presos"

Há um de construção complexa: é fácil entender o sentido, embora os detalhes fiquem um pouco confusos. Afinal, houve um foguete ou vários? Era foguete mesmo, ou ninguém tem muita certeza do que aconteceu?

** "Supostos míssil norte-americano mata 13 no Paquistão"

E um absolutamente impecável:

** "Berlim recebe obra que lembra cachorro de bexiga"

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Circo da notícia


MISTURA INDIGESTA

Imprensa é imprensa, polícia é polícia

Por Carlos Brickmann

Um famoso marginal carioca, Lúcio Flávio Villar Lírio, que virou até herói de filme, costumava protestar duramente contra a corrupção policial. Queixava-se: "Polícia é polícia, bandido é bandido". Pouco depois, na pior fase da ditadura militar, uma das reivindicações da imprensa era proteger-se contra o exercício da profissão por policiais que se faziam passar por jornalistas. A luta para que polícia e jornalismo não se misturassem teve grandes vitórias. Agora, infelizmente, vemos muitos jornalistas loucos para desempenhar funções policiais.

Há coisas visíveis, como fantasiar-se de policial para obter imagens exclusivas. E coisas menos visíveis, como os jornalistas que levam e trazem informações da polícia, sem sequer se dar ao trabalho de checá-las; como os repórteres que, em vez de publicar as notícias que obtiveram, preferem entregá-las às autoridades.

Há jornalistas que, nos anos de chumbo, valorizavam o direito de defesa, colocavam-se a favor do respeito aos direitos humanos, mantinham-se sempre perto de um advogado (até porque, em certos momentos, só a ação firme deste advogado poderia mantê-lo vivo, incólume e em lugar conhecido). Hoje criticam "os advogados pagos a peso de ouro" – os mesmos que, no passado, os defenderam de graça – e criticam os direitos individuais. A seu ver, uma polícia que não seja atrabiliária, uma investigação que não ofenda os direitos humanos e a possibilidade de acesso dos advogados à acusação, para que possam preparar a defesa, atrasam a punição dos culpados. Defendem a execração pública dos investigados, sem qualquer julgamento. Repetem, quase com as mesmas palavras, o refrão da direita fascista: direitos humanos são coisa de bandido. E bandido, naturalmente, é quem eles consideram bandido, e que o juiz só terá o direito de condenar. Ai do juiz que tiver idéias próprias e absolver algum cavalheiro que a imprensa considera culpado! Será patrulhado e atingido por toda sorte de insinuações.

Parafraseando Júlio Mesquita, em sua histórica polêmica com Eduardo Prado, isso não é imprensa, ou melhor, imprensa não é isso.


A culpa da vítima

Frase de um festejado comentarista de televisão, a respeito do filme Batman: "Ninguém filma Paris acabando ou Londres em pó. Mas americano paranóico só pensa em inimigos. As próprias torres encarnavam uma arrogância arquitetônica, pedindo bombardeio (...)"

A frase está errada, claro. "Paris está em chamas?", pergunta de Adolf Hitler a seu general von Choltitz, virou livro e filme. Paris foi filmada sob bombardeio e sob ocupação; a Batalha da Inglaterra foi tema de muitos filmes, Londres sob as bombas da aviação nazista. E dizer que as torres pediam bombardeio equivale a dizer que a moça foi estuprada por causa daquelas roupas reveladoras. Pior do que atribuir às vítimas a culpa do crime, justifica o terrorismo. Inaceitável.


Meliante, suposto, quem sabe?

De certa forma, é um bom hábito: indica que os meios de comunicação hoje se preocupam em reduzir as acusações indevidas. O sujeito só passa a ser chamado de meliante, elemento, bandido, depois de condenado (ou quando se transcreve alguma peça do Ministério Público ou da polícia).

Mas há exageros. Aquele garoto que atirou a esmo dentro de um cinema não é "suposto atirador". É atirador, mesmo. O sujeito apanhado em flagrante quando mata alguém não é "acusado de matar", é matador mesmo (pode ser absolvido, se a Justiça considerar que há motivos para isso, mas o fato de não ser punido não significa que não tenha matado).

O professor de jornalismo Álvaro Larangeira traz um caso exemplar, tirado de um grande jornal:

"Suspeito de ter matado jovem britânica se diz arrependido em GO"

E analisa:

"Silogismo jornalístico:

a) Ele é o suspeito;
b) Ele confessa;
c) Logo, ele não é mais o suspeito".

Mais claro, impossível.


Última flor...

Num grande jornal, a reportagem mostra a dificuldade de encontrar sementes de papoula para uso culinário. E entrevista uma senhora que ainda tem um pequeno estoque, mas é preciso "polpar".

Parece que as sementes devem ser espalhadas com a "pauma" da mão.


...do Lácio

Também de um grande jornal (e em título!):

** "Tarso responde delegado".

Pelo jeito, a regência verbal segue o mesmo caminho da regência trina, de antes de D. Pedro 2º: deixa de existir. Este colunista até tentou outra possibilidade, de que alguém tenha perguntado ao ministro da Justiça qual a profissão de, digamos, Paulo Lacerda, e ele tenha respondido "delegado". Mas não, o tema era outro. Além disso, o ministro Tarso Genro jamais conseguiria responder a uma pergunta com uma só palavra.


Como é mesmo?

O título é de um portal importante:

** "Espírito Santo lidera ranking de produção industrial, diz IBGE"

Terá São Paulo, finalmente, perdido a liderança industrial no país?

Não: o que o título gostaria de dizer é que o Espírito Santo liderou, neste ano, o ranking de aumento da produção industrial. Um pouco diferente.


E eu com isso?

Tudo bem, a abertura das Olimpíadas de Pequim foi assunto por dois ou três dias (este colunista, lembrando ainda o ursinho Mischa das Olimpíadas de Moscou, ficou decepcionado com a festa chinesa). Mas os principais temas de conversa são outros: são os que se seguem.

** "Antonio Fagundes leva a namorada ao teatro"
** "Carol Castro aparece sentada na capa da Playboy"
** "Ivete Sangalo repete roupa de Cicarelli"
** "Mulher Melancia janta com namorado no Rio"
** "Carolina Dieckmann pegou carrapato"
** "Junior Lima `se joga´ na noite paulistana"

O grande título

Muita coisa boa, muita coisa boa. Temos títulos daqueles que faltou completar, como...

** "Índia: Murdoch investirá US$ 100 mi para em canais"

** "Aspirantes a sucessor de Olmert evitar eleições"

Temos aqueles que precisam de interpretação:

** "Engavetamento entre nove veículos mata um na Dutra"

E este colunista nem sabia que os veículos estavam vivos!

Há uma excelente série de duplo sentido:

** "Fabiana Murer recebe varas após epopéia"

** "Não deu: Juliana desiste dos Jogos de Pequim"

** "Cachorro comendo o rabo"

Seria melhor colocar "o próprio", não é mesmo? Gente com maus pensamentos, como este colunista e boa parte de seus leitores, pode fazer interpretações que provavelmente não corresponderão às puras intenções do autor do título.

O melhor título está na categoria dos que precisam de explicação:

** "Dunga pede chute para evitar `pecado´"

Alguém tem a explicação?

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Circo da Notícia


Por Carlos Brickmann - Observatório da Imprensa

CASO ISABELLA
Aquilo que o povo quer e a Justiça

Certa vez, quando era presidente da Câmara Federal, o deputado Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) disse uma frase histórica: algo como "aquilo que o povo quer esta Casa acaba querendo". Pouco depois, a opinião pública se voltava contra ele – injustamente, aliás. E, diante do clamor popular, expresso pela imprensa, Ibsen foi cassado.

Uma decisão judicial, agora, parafraseia a expressão de Ibsen: é preciso prender o casal acusado do assassínio da menina Isabella, entre outros motivos, por causa do clamor popular. Clamor esse que, sabemos, é muito influenciado pelos meios de comunicação e pela ânsia de autoridades que querem aparecer na TV.

Aceitemos, para argumentar, que o casal seja efetivamente culpado (e os indícios até agora conhecidos apontam mesmo para essa direção). Os advogados de defesa terão, no comportamento das autoridades e dos meios de comunicação, fortes aliados. Que isenção terá uma delegada que, ao deparar pela primeira vez com o casal, desatou a gritar "assassinos"? Alugar até banheiros químicos com dinheiro público para as pessoas que iriam à repartição de polícia exigir o linchamento do casal não indicará uma posição adotada, antes de qualquer investigação? E o sangue no carro, havia, não havia? Ou não se sabe – afinal, foram tantas entrevistas!

Como pôde alguém entrar com uma câmera numa área restrita, guardada pela polícia, para gravar o acusado no momento em que "tocava piano" (tomavam-lhe as impressões digitais) e passar a imagem para a imprensa? Quem providenciou um carro de polícia com vidros claros, para que os presos pudessem ser filmados e fotografados enquanto eram transportados para a cadeia? E, principalmente, por que devem os acusados ficar presos se assassinos confessos e condenados aguardam o julgamento dos recursos em liberdade?

Há jornalistas que consideram Gêngis Khan um esquerdista enrustido dizendo que é assim mesmo, que não há mal nenhum em expor acusados a multidões que proclamam seu desejo de linchá-los. Efetivamente, em casos como esse, em que não apenas uma menina foi morta, mas em que as suspeitas recaem em quem deveria protegê-la, o ritual da Justiça é irritante. Mas é essencial – e, embora os meios de comunicação tenham contribuído para o clima de linchamento, a maioria absoluta concorda com isso – para que possamos continuar vivendo em sociedade.

Oração
Quem for contra o direito de defesa deve rezar todos os dias para não precisar dele.

O ataque ao ídolo
Ronaldo Gorducho se transformou em alvo preferencial da artilharia da imprensa. Até aí, tudo bem: quando as notícias sobre ele eram favoráveis, quando saía com belas mulheres, quando as Ronaldinhas posavam nuas, nunca se queixou dos repórteres. Não pode queixar-se agora. Mas há limites: gravar uma entrevista feita em outra emissora e encaixar novas perguntas, de maneira a tornar comprometedoras as respostas do ídolo, isso não dá para aceitar. Pense em alguma pergunta simples, algo como "você acredita que poderá voltar a treinar nesta semana", a que ele respondeu "não". E troque a pergunta: "Você gosta de mulher?"

Pois foi o que fizeram.

A lenda vive
No domingo, Dia das Mães, o Diário do Grande ABC, maior jornal regional do país, completou 50 anos. A festa se realizou na antevéspera, com a presença de dois dos quatro fundadores do jornal: Mauri Dotto, que continua na empresa, e Fausto Polesi, rijo e brilhante nos seus mais de 70 anos. Fausto Polesi fez um discurso emocionante, lembrando o ABC paulista na época em que o jornal foi fundado e sua trajetória de crescimento. Só faltou um toque para que a homenagem fosse completa: levar ao palco o filho de Fausto, também jornalista brilhante, ótimo repórter e editor, com carreira não só no Diário do Grande ABC mas também nos grandes jornais nacionais. Faltaram os aplausos a Alexandre Polesi.

Alô, pauteiros
Neste mês e no próximo haverá em São Paulo dois grandes eventos, daqueles que atraem gente de todo o país e que se medem em milhões de participantes: a Marcha para Jesus, dentro de pouco mais de uma semana, e a Parada Gay. Ainda dá tempo de medir os locais em que se realizarão os eventos e calcular, cientificamente, o número de participantes. É preciso evitar aquela coisa ridícula de dizer "tantas pessoas, segundo os organizadores, ou tantas, segundo a Polícia Militar". A informação deve ser precisa, e o investimento vale a pena: os dois eventos se realizam em diversos países e os de São Paulo são os maiores do mundo.

Silêncio ensurdecedor
O Correio Braziliense do dia 5 publicou uma notícia interessantíssima: dos 17 senadores que recebem ajuda de custo de R$ 3.800 mensais para cobrir despesas com moradia, quatro, cujos nomes são citados na matéria, têm excelentes residências, em excelentes endereços da capital federal. Dois outros, cujos nomes são também citados, têm imóveis residenciais em Brasília, mas preferem morar em propriedades alugadas, embolsando assim a ajuda de custo.

A reportagem foi ótima – e não houve repercussão nenhuma. Jornais, revistas, internet, rádio, TV, todos passaram por cima do tema. Por que tanto silêncio?

Como...
De um grande jornal: Estuprador de Basset é "condenado" a pagar multa de R$ 150.

Aspas se usam, normalmente, em duas ocasiões: para indicar que a frase é transcrita sem mudanças, ou para indicar que determinado termo não tem o sentido que lhe é habitual. No caso, o cavalheiro que estuprou o cachorro foi condenado. Por que as aspas em "condenado", então?

...é mesmo?
De um currículo recheado de experiências, ações estratégicas, termos em inglês, multinacionais, títulos e cargos de direção: "(...) atualmente lessionando (...)"

"Lessionando" deve ser a mesma coisa que "dar lissões".

E eu com isso?
Lessionemos, pois. Um velho jornalista dizia que, quando não sabia se a palavra era com um ou dois "esses", botava logo três, para parecer que era erro de datilografia. Mas no caso não serve. Talvez um "leçionando", com cedilha, ou, melhor ainda, "lescionando", dê mais a impressão de erro de digitação.

Mas, enquanto discutimos a Última Flor do Lácio, cada vez mais inculta e menos bela, a vida continua rolando. Veja só: Kate Moss sai de aula de ioga e encontra seu motorista dormindo no carro.

E há outras notícias sem as quais o jornalismo desapareceria (como encher o espaço de tantas páginas de celebridades?)

1. Filha de George W. Bush não convida namorado da prima, que é filho de Ralph Lauren, para seu casamento
2. Xanddy faz escova progressiva
3. Grávida, Lavínia Vlasak caminha na praia
4. Mulher Moranguinho faz aula de pole dance
5. Lily Allen vai às compras com sutiã de fora
6. Sem aplique, Amy Winehouse é flagrada com queda de cabelos

Do jeito que a moça se dedica aos secos e molhados, alguma coisa tinha mesmo de cair. Ainda bem que são só os cabelos.

O grande título
Apenas três concorrentes (provavelmente, nesta semana o colunista estava menos atento do que de costume):

1. Cientistas flagram "assédio sexual" de foca a pingüim
Não podia dar certo: um mamífero com jeitão de peixe se interessando por uma ave com o jeitão do deputado Michel Temer usando smoking.

2. KLB fará ´impossível` por papagaios
Este é um problema da internet: o título fica pela metade e o redator nem percebe.

E o grande vencedor:
3. Suíça amolece para garantir batata frita em jogos de futebol

Certamente deve querer dizer alguma coisa.