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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Amazonologia



Amazonologia

Por Eduardo Almeida Reis - Correio Braziliense - 15/11/2008

São comuns na internet plágios, contrafações, textos atribuídos a fulano ou beltrano, quando são de sicrano ou invenção que internautas que preferem ficar anônimos. Coisa feia, esse negócio de anonimato. Coisa feia, também, a transcrição apressada de um texto, atribuindo a terceiros aquilo que escreveram de outra forma, em outro contexto.

O que acho admirável nas pérolas pescadas pelos professores no Enem é que são autênticas. É inimaginável que alguém, mesmo com o propósito de fazer graça, possa inventar aquilo. Quem é o pensador mais engraçado, mais experiente, mais culto do Brasil? Voto em Millôr Fernandes , escritor, teatrólogo, humorista, desenhista, causeur, tradutor de Shakespeare, autor de frases antológicas - profissional completo.

Pois muito bem: se pedissem ao genial Millôr que se trancasse no escritório durante um ano para produzir as pérolas transcritas abaixo, sou capaz de apostar que ele não conseguiria. Recuso-me a incluir as frases no gênero besteirol, que é coisa séria, seriíssima, pressupondo autor com humor e saber; senso de humor e ilustração do público-alvo. Vamos às pérolas.

1) "O problema da amazônia tem uma percussão mundial. Várias ONGs já se estalaram na floresta". 2) "A amazônia é explorada de forma piedosa". 3) "Vamos nos unir juntos de mãos dadas para salvar o planeta". 4) "A floresta tá ali paradinha no lugar dela e vem o homem e créu". 5) "Tem que destruir os destruidores por que o destruimento salva a floresta". 6) "O grande excesso de desmatamento exagerado é a causa da devastação". 7) "Espero que o desmatamento seja instinto". 8) "A floresta está cheia de animais já extintos. Tem que parar de desmatar para que os animais que estão extintos possam se reproduzirem e aumentarem seu número respirando um ar mais limpo". 9) "A emoção de poluentes atmosféricos aquece a floresta".

10) "Tem empresas que contribui para a realização de árvores renováveis". 11) "Animais ficam sem comida e sem dormida por causa das queimadas". 12) "Precisamos de oxigênio para nossa vida eterna". 13) "Os desmatadores cortam árvores naturais da natureza". 14) "A principal vítima do desmatamento é a vida ecológica". 15) "A amazônia tem valor ambiental ilastimável". 16) "Explorar sem atingir árvores sedentárias". 17) "Os estrangeiros já demonstraram diversas fezes enteresse pela amazônia". 18) "Paremos e reflitemos". 19) "A floresta amazônica não pode ser destruída por pessoas não autorizadas".

20) "Retirada claudestina de árvores". 21) "Temos que criar leis legais contra isso". 22) "A camada de ozonel". 23) "A amazônia está sendo devastada por pessoas que não tem senso de humor". 24) "A cada hora, muitas árvores são derrubadas por mãos poluídas, sem coração". 25) "A amazônia está sofrendo um grande, enorme e profundíssimo desmatamento devastador, intenso e imperdoável". 26) "Vamos gritar não à devastação e sim à reflorestação". 27) "Uma vez que se paga uma punição xis, se ganha depois vários xises". 28) "A natureza está cobrando uma atitude mais energética dos governantes". 29) "O povo amazônico está sendo usado como bote expiatório".

30) "O aumento da temperatura na terra está cada vez mais aumentando". 31) "Na floresta amazônica tem muitos animais: passarinhos, leões, ursos, etc." 32) "Convivemos com a merchendagem e a politicagem". 33) "Na cama dos deputados foram votadas muitas leis". 34) "Os dismatamentos é a fonte de inlegalidade e distruição da froresta amazonia". 35) "O que vamos deixar para nossos antecedentes?" 36) "A fiscalisação tem que ser preservativa". 37) "Não podem explorar a Amazônia de maneira tão devassaladora".

Aigolonozama


Por trás da falta de palavras

Marina Silva - para o Terra Magazine - Terça, 25 de novembro de 2008, 07h21

"Tem que parar de desmatar para que os animais que estão extintos possam se reproduzirem e aumentarem seu número respirando um ar mais limpo". Esta e outras afirmações foram feitas no exame nacional do ensino médio.

São as famosas "pérolas do Enem", que circulam todo ano na internet. Sempre tenho dúvidas sobre a veracidade desses relatos, mas, desta vez, li a respeito no texto de um colunista do jornal Correio Braziliense ("Amazonologia", Eduardo Reis, 15/11/2008), que os trata como autênticos.

Se as frases por ele reproduzidas são de fato provenientes das redações do Enem sobre meio ambiente e Amazônia, estamos diante de um gravíssimo adoecimento educacional do país, que essas provas deixam mais evidente. E, o que é pior, os jovens vítimas dessa situação são ridicularizados, como se fossem uma espécie de "palhaços" trágicos da nossa incapacidade coletiva de superar um dos piores passivos nacionais, que é o da educação.

Duas situações convivem nesse universo. Uma, a dos estudantes cujas famílias têm meios para lhes dar suporte escolar e um ambiente doméstico com bom acesso à informação. Outra, a dos estudantes que remam contra a maré da pobreza, da falta de condições materiais em casa e do arremedo de escola. Estes são duplamente atingidos porque são também humilhados, como se a condição de pobreza, que os afasta dos meios para melhorar a performance escolar, significasse uma incapacidade inata.

Mas, lendo com atenção as frases, é possível fazer uma colheita de pérolas verdadeiras, de grande valor. Na verdade, seus autores revelam uma preocupação pertinente e relevante com a Amazônia, embora não tenham as palavras corretas para expressá-la. Fazem um esforço para identificar problemas ambientais reais, mas em boa parte dos casos talvez lhes faltem os jornais, o acesso à informação, a intimidade com a linguagem culta. Falta-lhes escola de qualidade.

E, no entanto, por meio de sua linguagem torta, dizem muito. No seu esforço para escrever há uma intenção e uma informação. A intenção é de proteger o meio ambiente e a Amazônia. A informação que nos chega, de forma indireta, é a de que as camadas mais pobres do país e, portanto, as que têm menos oportunidades de educação formal, conhecem a importância desse tema. Sabem que é preciso cuidar da biodiversidade, evitar os desmatamentos e queimadas.

Esses jovens, a despeito da falta de apoio, têm o mérito de ter conseguido entender a visão básica de conservação e de conceitos sócio-ambientais complexos. Se "traduzirmos" suas frases, o que está dito é: o que acontece na Amazônia tem repercussão mundial; a Amazônia é explorada de forma impiedosa; vamos nos unir para salvar o planeta; o homem destrói a floresta e isto tem que ser coibido; o desmatamento ilegal é a principal causa da devastação; o processo de extinção de animais é grave; a emissão de poluentes contribui para a destruição da floresta; há empresas que lidam com a floresta da maneira correta; as queimadas destroem os habitats da fauna; a Amazônia tem valor inestimável; devemos parar e refletir. Alguém discorda?

Também, à sua maneira, falam do corte ilegal de árvores, da necessidade de leis, da responsabilidade dos governantes, da má política, da necessidade de ações preventivas, do aumento do aquecimento global. Têm noção dos temas que importam, mas não sabem discorrer sobre eles.

Têm sensibilidade, mas o sistema de ensino não está à altura deles, de seu interesse, de seu potencial. Rir de seus erros é um contra-senso; é como se achássemos hilariante o desastre que o déficit educacional significa para o futuro do Brasil.


Marina Silva é professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente.